segunda-feira, 19 de maio de 2008

Analisando "O olho e o espiríto"


Análise do texto: O olho e o espiríto
Autoria de Merleau-Ponty


De ínicio é bom lembrarmos que para Merleau Ponty a ciência pode nos proporcionar uma visão de mundo objetiva e de certo ponto interessante. Mas, muito contrário do pensamento platônico que visava, sobretudo, a racionalidade, Ponty é um admirador e defensor do mundo sensível. Ele inicia seu texto criticando o idealismo sobre a ciência e o pensar. Discorre que dilemas seriam superados caso a ciência se visse como construção sobre a base de um mundo bruto, não desmistificando as coisas e as tratando como objetos comuns. Em seu pensamento, Ponty pressupõe que se temos um mundo como sendo o objeto de nossas intervenções, significaria que tudo que existiu, jamais tivesse existido senão para pertencer ao mundo da ciência e/ou dos laboratórios. Logo, há um confronto entre o realismo e o idealismo, sendo que o primeiro elimina o sujeito e a realidade é verdadeira, por outro lado, no segundo o mundo é eliminado dando vez ao sujeito como operador do conhecimento. Assim, surge uma nova linha de raciocínio, que nos faz pensar que estamos em um mundo que por ser mais velhos que nós, não espera o sujeito do conhecimento para se concretizar, porem o sujeito do conhecimento é capaz de modificar e dar sentido a este mesmo mundo qualitativo de cores, seres, lembranças e sentimentos. O texto vem estabelecendo relações e observação do mundo, sobretudo, através da pintura. Há uma especulação do mundo através das mãos e dos olhos do artista, em nosso caso mais especifico, do pintor. O corpo do pintor é entregue aos mundos, rede de causas e efeitos, um modo de ser e estar no mundo, de se relacionar com ele. É corpo sensível que sente e se sente que sabe de sentir sentindo e assim o transforma em pintura O mundo Visível e o mundo dos meus projetos motores são partes totais do mesmo ser. (Merleau Ponty).
Para Ponty o corpo é depositário, ou seja, vai muito além dos sentidos de visão e tato; o espaço é contado como grau zero da espacialidade e não uma rede de relações entre objetos; o mundo está ao redor e não distante, porém não faz com que visão perca seu lado imaginário. Na visão do Autor o olho do espelho seria o emblema do olhar do pintor, ou seja, há uma elevação do sensível que ele traduz e duplica se diferindo de um cartesiano que pensa no espelho como um produtor de efeitos irreais. Mesmo o autor não concordando com Descartes o coloca no texto, pois o que interessa é pensarmos e analisarmos que toda história da pintura é metafísica. A visão fenomenológica esta presente no texto, portanto o olhar das dimensões se faz automaticamente presente. Quando vejo através da espessura da água o revestimento dos azulejos no fundo da piscina, não o vejo apesar da água, dos reflexos, vejo-os justamente através deles, por eles. Se não houvesse essas distorções, se eu vise sem essa carne à geometria dos azulejos, então é que deixaria de vê-los como são, onde estão, a saber: mais longe que todo lugar idêntico. A própria água, a força aquosa, o elemento viscoso brilhante, não posso dizer que esteja no espaço;ela não está alhures ,mas também não está na piscina .Ela a habita ,materializa-se ali ,mas não está contida ali,e esse ergo os olhos em direção ao anteparo de ciprestes onde brinca a trama de reflexo ,não posso contestar que a água a visita também,ou pelo menos a ela envia a sua essência ativa e viva .É essa animação interna ,essa irradiação do visível que o pintor procura sob os nome de profundidade ,espaço ,cor. (Merleau Ponty).
Ao observarmos este trecho, o autor diz ver os azulejos apesar dos meios externos (ondulações, reflexos da água, espelhamentos) separando o todo, distinguindo o que é fundamental. Dividindo a piscina em partes diversas (água, forma da piscina, azulejo) e separáveis. A profundidade é a experiência da reversibilidade das dimensões. A altura, largura são abstratas de uma voluminosidade que exprimimos numa palavra ao dizer que uma coisa está aí. A mesma não é terceira dimensão, é o invisível da visibilidade. As faces de um cubo são o invisível do cubo, enquanto pelo que ele se fez uma coisa visível o invisível não é o negativo, mas aquilo pelo que o visível é visível. Seu avesso estofo, sua ausência que conta no mundo. “O invisível é o forro que atapeta o visível”. O que ocorre com a pintura, e com o pintor, é uma introspecção de questionamentos infundados em uma filosofia ideológico e de cunho sensível, ele não apenas a reproduz, ele questiona, através da imagem, idéias e conceitos, ou seja, um olhar intelectual. O que de fato o texto nos induz, é uma jornada entre o olho e o espírito, interrogando a experiência do ver e do olhar, e, sobretudo, do sentir.

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